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O COMÉRCIO GLOBAL NÃO MORREU

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O COMÉRCIO GLOBAL NÃO MORREU

Em “Trade World: The Ties that Bound our Past and Could Unravel Our Future”, Ed Conway investiga a força e a complexidade das redes que sustentam o comércio global. A tese central do livro contraria o diagnóstico recorrente de que a globalização estaria chegando ao fim: apesar das tarifas impostas pelos Estados Unidos e do discurso sobre uma fragmentação da economia internacional, o volume de mercadorias transportadas pelo mundo continua crescendo. Para explicar essa engrenagem, o autor, editor de Economia e Dados da Sky News, recorre a três produtos cotidianos, pão, roupas e carros, e acompanha as redes que fazem esses bens circularem entre países e continentes.

O livro combina história econômica, reportagem e exemplos que ajudam a dimensionar a escala desse sistema. Conway passa por padarias francesas e fábricas asiáticas, recupera episódios que vão do comércio de cobre na Mesopotâmia às ideias de David Ricardo e à experiência britânica com tarifas no século 19. Entre os exemplos mais impressionantes está o Irina, o maior navio porta-contêineres do mundo, com cerca de 400 metros de comprimento e capacidade para transportar mais carga do que toda a frota de 100 embarcações da British East India Company. Para Conway, a dimensão desses navios também ajuda a explicar a capacidade de adaptação do comércio internacional, permitindo que empresas alterem rotas diante de tarifas, conflitos e outros obstáculos.

A força do livro, porém, está também em mostrar os limites dessa resiliência. O comércio mundial atingiu volumes recordes no ano passado, crescendo cerca de 5%, mesmo com as tarifas americanas em níveis inéditos na era moderna. Ao mesmo tempo, as rotas comerciais estão mudando, com maior intercâmbio entre Europa e Ásia e entre a Ásia e o Sul Global, enquanto empresas passaram a mapear vulnerabilidades, encurtar cadeias de suprimentos e aproximar parte da produção dos mercados consumidores. Conway alerta, porém, para a fragilidade de uma economia ainda baseada em entregas just in time, vulnerável a restrições, conflitos e guerras. Trade World chega, assim, a uma conclusão incômoda: a desglobalização ainda parece mais uma previsão do que uma realidade, mas a interconexão que tornou o comércio tão eficiente também pode tornar suas rupturas especialmente custosas.

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