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Regina Pinho de Almeida

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Regina Pinho de Almeida

Empresária, Regina Pinho de Almeida é fundadora do Instituto de Cultura Contemporânea (ICCo) e da Casa de Cultura do Parque, além de colecionadora de arte contemporânea latino-americana.

Como você lida com a passagem do tempo? Convivemos com diferentes escalas de tempo. Há o tempo do universo, diante do qual uma vida humana é apenas um instante. Há o tempo da humanidade, em que cada geração acrescenta um pequeno capítulo a uma história muito maior. E há o nosso próprio tempo: algumas décadas para construir relações, realizar projetos, formar uma família e dar significado à nossa existência.

Acho curioso que o tempo seja, ao mesmo tempo, tão concreto e tão abstrato. Nós o medimos com enorme precisão, mas só percebemos sua passagem pelos sinais que ela deixa: um aniversário, uma fotografia, o espelho, o crescimento dos filhos ou o reencontro com um velho amigo. Talvez seja por isso que os seres humanos criem tantos rituais para marcar o tempo: eles tornam consciente uma transformação que, de tão contínua, quase se torna invisível.

Aceito a história que construí e as escolhas que fiz, procurando compreendê-las e seguir construindo uma trajetória coerente com os valores que me trouxeram até aqui. Não escolhemos a escala do tempo em que existimos. Mas podemos escolher o significado da passagem que deixam.

Qual lição mais dura a vida te ensinou? Com o tempo, descobri que o verdadeiro limite não é só a finitude do tempo, mas também o das nossas próprias capacidades. Nem tudo depende de vontade. Excelência exige talento, disciplina, renúncia e humildade.

Por um período, achei que poderia ser escritora. Me fascinava criar universos, construir narrativas e levar o leitor a outras realidades. Mas, com o tempo, percebi que minha admiração pelos grandes autores era maior do que uma vocação real para seguir esse caminho. Foi uma constatação difícil, porque significava abrir mão de uma identidade que eu havia imaginado para mim.

Hoje vejo isso não como uma derrota, mas como um processo de autoconhecimento. Crescer também é abrir mão do que imaginamos ser para dar espaço ao que podemos nos tornar. Talvez essa seja uma das lições mais duras da vida: maturidade não é realizar todos os sonhos da juventude, mas ter a lucidez de reconhecer quais são realmente os nossos e seguir em outra direção.

Qual legado você pretende deixar? Antes de tudo, eu acredito no acaso. Há quem veja a vida como um destino já traçado, um papel definido para cada um de nós. Eu acho essa ideia até reconfortante, mas perguntas como quem somos, por que estamos aqui e o que dá sentido à nossa existência sempre me acompanharam.

Para mim, a vida não se sustenta só nas coisas fundamentais (trabalhar, formar uma família, viver o dia a dia) se não houver algo que organize isso internamente, que dê coerência ao que fazemos. Por isso, eu vejo o legado não como reconhecimento, mas como essa necessidade muito humana de dar sentido à própria existência.

Foi essa inquietação que me levou a criar e manter o ICCo e a Casa de Cultura do Parque. Em um país tão desigual, eu acredito muito na cultura como uma força capaz de transformar realidades, ampliar oportunidades, fortalecer vínculos e ampliar a participação cidadã.

E, no fim, se esse trabalho puder deixar algum legado, espero que seja mostrar que iniciativas movidas por convicção podem gerar valor, inspirar outras e reforçar que transformar realidades é uma responsabilidade compartilhada.

Qual foi a época mais feliz da sua vida? Certamente, a época mais feliz da minha vida foi a infância. Naquele tempo, não me perguntava qual era o significado da vida; simplesmente a vivia. A inocência nos permite viver o mundo em sua plenitude. A maturidade, por outro lado, traz perguntas e respostas para muitas das incertezas da adolescência, mas também a consciência dos nossos limites e de que nem todas as possibilidades cabem no tempo de uma vida. É essa descoberta que desperta em nós a busca por um propósito. E talvez a maior felicidade esteja mesmo em, ao fim da jornada, perceber que fomos capazes de cumprir a missão que escolhemos. Essa seria a verdadeira gratificação de uma existência vivida com sentido.

Que você enxerga dos seus pais em você? Vejo em mim, por óbvio, o mesmo gosto pela arte e o reconhecimento de sua importância no cotidiano que encontrei em meus pais. Mas admirar qualidades não significa conseguir possuí-las, como a elegância aristocrática de modos de minha mãe, tão contraposta à minha descontração nata.

Mas talvez o que mais reconheça e agradeça por compartilhar seja o respeito pelos valores humanistas tão presentes na trajetória da família de meu pai, e ainda, de minha avó materna, alguém cujo olhar profundamente empático e solidário, avesso a preconceitos e cerimônias, quem melhor trazia essa postura à vida, não como uma ideia abstrata, mas na prática diária, enxergando no outro a dignidade antes do rótulo, da origem ou da posição social.

Em uma sociedade tão desigual quanto a nossa, qualquer sensibilidade às desigualdades ou questionamento das hierarquias ainda pode ser visto com certo estranhamento. Meu pai, por exemplo, grande agropecuarista, era jocosamente chamado pelos amigos de… comunista! Pelo que vejo, segue em mim também esse entendimento.

Alessandra Menga

Alessandra Menga

Firechat com Alessandra Menga, CEO da Amma

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